O filme começa com uma fotografia geral de Nova York, na região de Manhattam. Se seguem fotografias vindas em corte seco, deixando explícita a montagem, mostrando cada vez mais a fundo o bairro, as ruas, o cotidiano e, sobretudo, como a cidade está em ritmo de crescimento, prédios sendo construídos, a moda mudando, muitos carros nas ruas (aspectos constantemente presentes na fotografia do filme). Enquanto as imagens s seguem, ouvimos uma voz tentando iniciar o primeiro capítulo de seu romance, falando de um personagem apaixonado por aquela cidade mas que vê nela uma decadência dos velhos costumes devido ao progresso, aos remédios e drogas, a violência aumentado, dentre outros fatores típicos de uma cidade em crescimento acelerado.
As imagens vão mostrando a vida agitada, a multidão que habita a cidade, novas pessoas chegando num barco, cada vez mais habitantes nas ruas, a noite chega mas a vida não para, ainda há luzes acesas nas casas, o estádio de esportes lotado e fogos de artifício subindo aos céus.
De repente a câmera se centra numa pequena mesa num restaurante com dois casais sentados nela. E a partir daí acompanha a história desse pequeno grupo no meio da imensidão dessa cidade.
Nas externas e algumas internas os personagens enquadrados no canto da tela, reforçando ainda mais essa impressão de que são apenas poucas pessoas soltas na grandiosidade daquela cidade movimentada ou nas salas grandes de suas casas.
Enquanto as imagens toda hora nos remetem às mudanças que a cidade está sofrendo, os diálogos, decisões e situações pelas quais os personagens passam nos mostram como as pessoas também estão sempre em transição, com dúvidas o tempo todo, mudanças rápidas de decisões, sem conseguir se encontrar no meio disso tudo. Os amores, que antes pareciam tão certos, agora não conseguem durar mais que poucos meses, as pessoas não sabem do que gosta, não sabem o que seguir.
Uma tempestade de novidades conturba ainda mais a vida desses personagens: a arte moderna contestando a arte clássica, a razão em confronto com a emoção, os programas de TV, antes boas comedias, agora não passam de besteirol. E todas essas novidades se refletem em suas vidas pessoais, sobretudo no personagem principal, com sua ex assumindo um amor com outra mulher, seu filho fazendo aula de bale, as pessoas ao seu redor combatendo o stress com drogas, a arte virando um produto e seu amor sempre perdido, cego, sem saber para onde ir.
No início do filme está num caso serio com uma menina de 17 anos, romance estilo Lolita, só que nessa sociedade já não mais a menina vê isso como errado, ela ama de verdade o homem, que se contesta se aquilo está certo, se apaixona por outra e fica sempre instável. Na verdade, por ironia, a única personagem estável e decidida do filme é essa garota jovem, que o tempo todo tem os mesmo desejos e medos, não acompanhando (ou acompanhando no seu passo) o ritmo de constante mudança da cidade, comportamentos e cultura.
Ressalta-se também uma estratégia muito boa para dissolver no filme essa relação da cidade com a pessoa. Quando, em muitas cenas, a câmera está fixa e os personagens, andando, saem do enquadramento enquanto ela continua a filmar um pedaço da cidade. Temos a sensação de que aquela cidade continua seguindo, independente daqueles personagens, daquela história, mas a visão deles continua sempre para ela, eles querem acompanhá-la e por isso se perdem nesse processo.
Para fechar o filme com chave de ouro, a câmera volta para a imagem da cidade inteira, mostrando as chaminés expelindo fumaça, os carros trafegando, luzes acesas e que a cidade continua independente do que passou com aqueles personagens e com quaisquer um dos milhares de habitantes de Nova York.
Dessa maneira temos, nas entrelinhas de uma típica comédia de Allen, dentre várias outras grandes análises, o estudo de um tema que todos nos confrontamos o tempo todo: nosso descompasso com o acelerado ritmo de crescimento da cidade, pois esse não consegue respeitar a velocidade do crescimento interno de cada um, nos levando a uma perdição de quem somos quando não conseguimos nos mover a parte desse movimento.