O filme começa. Esperamos ver seu nome escrito em uma tela preta com uma fonte bonita junto aos créditos iniciais da obra.
Ao invés disso, vemos um homem solitário em seu carro, passando devagar pelas ruas da cidade XXXXX. Vemos, pelo lado de dentro do carro, várias pessoas desesperadas para que aquele homem queira contratá-las, mas ele não pede a nenhuma delas, não sabemos o que ele deseja, por que observa tão lentamente aqueles homens. Vemos um fragmento de realidade forte e bem construído, ao invés de sermos puxados para o filme de forma brusca. O homem aos poucos se afasta daquele problema que nos cerca em toda cidade grande e algumas vezes ateh o vivemos. De repente, aparece o título e os créditos, deslocados para dez minutos depois do que o de costume, quebrando, de forma proposital, a diegese que estava sendo criada. Nos fazendo refletir de forma crítica sobre o fragmento de realidade nos passado.
Ao longo do filme o personagem segue com seu carro cada vez mais para uma ‘periferia’ da cidade, aonde aos poucos estão surgindo obras e se perdendo a natureza. Ele procura alguém capaz de realizar um serviço para ele, a forma estranha como ele faz o pedido faz muitas pessoas já colocarem o peh atrás, achando que é alguma safadeza, o que passa ao espectador esse sentimento de que o homem se tornou uma criatura hostil, desconfiada. Quando finalmente sabemos qual o serviço que ele precisa, descobrimos que ele quer se matar, e as pessoas continuam negando o serviço, se assustando, algumas pessoas talvez mais mortas interiormente do que ele não querem o ver acabar com sua vida.
Toda essa carga dessas palavras, do homem que diz, sem explicações que quer acabar com sua vida, dos outros que agem sempre com um peh atrás ou achando que teem a solução para a vida dele, acabam se juntando as imagens do filme, proporcionando uma experiência única ao espectador. Tudo o que vemos é ou o homem de dentro do seu carro passando rapidamente por coisas belas e feias, ou paisagens lindas cortadas por estradas, árvores sumindo, cores secas, tratores decepando a terra.
De repente aparece um homem que diz aceitar o serviço. Não vemos seu rosto, isso não importa, o que importa é seu discurso. Ele diz sobre olhar as coisas belas, olhar o mundo sob outra perspectiva. Diz quanto é bom apreciar a natureza e os prazeres simples dela que nos rodeia. Ao mesmo tempo que ele diz isso, a câmera sai do carro, e nos mostra a mesma paisagem de antes, mas, pelo discurso animador de agora, olhamos para tudo com um olhar de esperança, de que aquelas árvores e arbustos isolados teem vida, e vida de sobra, e o quanto isso é sagrado. A terra árida, já não é tão árida, é quente, é vida.
O protagonista também é abalado por essa fala, muda sua perspectiva. Já não tem mais tanta certeza se quer realmente desistir da vida. Por um impulso estranho de conversar mais uma vez com o sujeito que aceitou o trabalho sai do carro e vive relações, vê crianças, vê vida, e isso o afeta e nos afeta.
De noite, vemos por fora da sua casa (como se realmente fôssemos flaneurs ou porque o interior dessa não importa em nada) ele se arrumando e saindo para cumprir sua palavra.
Mas ele não vai de carro como havia falado, vai te taxi, e deita mas não o vemos beber o remédio. Agora a paisagem da estrada está linda, está escuro, a estrada se confunde com um rio cortando a vegetação e as luzes da cidade de longe, aquelas luzes paradas e eternas, nos remetem as estrelas que faltam no céu. Começa a chover, o relâmpago ilumina o rosto do personagem, tudo fica escuro, não se sabe se ele verá o sol nascer. Mas sabemos que agora nós temos um motivo de vida a mais e por isso acreditamos que ele também tenha.
De repente a diegese do filme é quebrada mais uma vez e temos uma filmagem de forma quase documental de Abbas dirigindo uma cena com vários soldados perto das árvores, o ator principal fumando um cigarro e a equipe toda lá. Talvez seja uma cena apenas final, apenas de quebra para abrir para uma reflexão para nossa vida, para o filme vazar para o espectador. Mas acredito em mais, pois nessa gravação vemos mais árvores, mais cores, mais pessoas unidas e vida. Nos faz mudar radicalmente nossa visão sob aquele espaço e nos faz acreditar que o personagem (vivo ou não) passou a ver tudo também daquela maneira apaixonante.
A pouco tempo ouvi certo discurso de que o cinema não tem mais o poder de modificar a pessoa. Discordo disso. e o filme de Kiarostami eh uma prova de que o cinema ainda tem essa força. Nos modifica durante o filme, e traz essas novas concepções para nosso dia-a-dia e nossos discursos, mesmo que de forma inconsciente.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
terça-feira, 5 de abril de 2011
O "ser artista" em A Hora do Lobo
O dom artístico, no senso comum, eh tratado sob dois pontos de vista: uma dádiva divina, um dom, que você ganha ao nascer, irá iluminá-lo ao resto de sua vida ou, combatendo essa explicação mágica para a arte, como o resultado de muito estudo e esforço, que eleva o indivíduo a um nível muito maior que do homem comúm.
No filme Hora do Lobo, Bergman não quer discutir de onde vem o dom, mas reflete sim ateh que ponto isso eh uma benção, uma realização, e se não pode ser um castigo ou uma degradação humana.
O personagem principal vive isolado e uma ilha com sua menina. Já no início vemos que ele tem uma compreensão muito profunda da realidade palpável, encara o tempo e espaço de sua maneira única, ao mesmo tempo em que tem um medo muito real de figuras que assombram seus pesadelos.
Ao longo do filme vivemos transitando entre o mundo palpável e o onírico (onde está o
reflexo da realidade aos olhos do artista), sem perceber que estamos toda hora ultrapassando a película que divide essas duas realidades. Temos então a sensação que o artista eh essa pessoa que conseguiu extinguir essa divisão de mundos, e considerá-los igualmente reais.
Porem, ao longo do tempo percebemos que ele não tem controle sobre essa sua transcendência. Tendo muitas vezes medo de alcançá-la, de ficar perdido naquele mundo onde se encontra suas inspirações e pensamentos no estado mais profundo. Sua mulher tem uma ligação tão forte com o marido que também vê e faz parte desse mundo, mas ela tem uma maior noção de que aquilo eh outro mundo, e tenta impedir o marido de se perder nele e esquecer a realidade.
O artista acaba entrando em uma crise, não sabe mais quem eh sua musa inspiradora, não sabe em que mundo está, se aquelas criaturas querem seu bem ou o seu mal, e, nessa loucura acaba se afundando num êxtase supremo no qual desaparece da realidade, para seu bem ou seu mal.
No filme Hora do Lobo, Bergman não quer discutir de onde vem o dom, mas reflete sim ateh que ponto isso eh uma benção, uma realização, e se não pode ser um castigo ou uma degradação humana.
O personagem principal vive isolado e uma ilha com sua menina. Já no início vemos que ele tem uma compreensão muito profunda da realidade palpável, encara o tempo e espaço de sua maneira única, ao mesmo tempo em que tem um medo muito real de figuras que assombram seus pesadelos.
Ao longo do filme vivemos transitando entre o mundo palpável e o onírico (onde está o
reflexo da realidade aos olhos do artista), sem perceber que estamos toda hora ultrapassando a película que divide essas duas realidades. Temos então a sensação que o artista eh essa pessoa que conseguiu extinguir essa divisão de mundos, e considerá-los igualmente reais.
Porem, ao longo do tempo percebemos que ele não tem controle sobre essa sua transcendência. Tendo muitas vezes medo de alcançá-la, de ficar perdido naquele mundo onde se encontra suas inspirações e pensamentos no estado mais profundo. Sua mulher tem uma ligação tão forte com o marido que também vê e faz parte desse mundo, mas ela tem uma maior noção de que aquilo eh outro mundo, e tenta impedir o marido de se perder nele e esquecer a realidade.
O artista acaba entrando em uma crise, não sabe mais quem eh sua musa inspiradora, não sabe em que mundo está, se aquelas criaturas querem seu bem ou o seu mal, e, nessa loucura acaba se afundando num êxtase supremo no qual desaparece da realidade, para seu bem ou seu mal.
A ilusão da ganância em Contos da Lua Vaga
Na obra-prima do diretor japonês Kenji Mizoguchi, acompanhamos a vida de dois casais pobres, habitantes de uma pequena vila, no Japão feudal.
Vivendo ao meio de guerras, invasões e miséria, eles se sustentam com o pequeno comércio de objetos de porcelana que um dos casais produz junto com a esposa. Enquanto os homens (Genjuro e seu cunhado Tobei), insatisfeitos com essa vida, querem crescer socialmente (um sonha em se enriquecer aumentando e melhorando sua produção o outro sonha em ser samurai e ter alto prestígio social), as mulheres (Miyagi e Ohama) não se importam em continuar naquela vida, contanto que tenham o amor da família unida, que vive e trabalha junto de maneira bonita.
Logo no início do filme já nos é anunciado por um ancião da vila o que será daqueles homens, quando é dito que ‘a ganância gera ganância’, colocando como um processo de vício sem fim essa busca por prestígio e dinheiro.
Ao longo do filme os homens seguem cada vez mais cegos em busca de suas fantasias, sem perceber que estão perdendo toda a realidade que já têm, deixando as esposas, a casa e o filho para traz, num processo que encaro como uma decadência na busca da suposta ascendência.
Genjuro, após colocar em risco a vida de toda família para não perder seu produto durante uma invasão a vila, acaba vivendo na ilusão da companhia de uma moça de família, vivendo em uma mansão com ‘prazeres que nem sabia que existiam’. Nessa ilusão vive todo o luxo que queria, sua arte tem o reconhecimento que sonhara e sua vida não tem sofrimento. Mas em nada disso há realidade, se esquece do amor da esposa e do filho que te esperam em casa, pois fica cego com aquela fantasia, que não sabemos até que ponto é uma feita pela morta para atraí-lo para seu mundo e o que daquilo é a ilusão de sua própria cabeça, sua própria loucura da busca desenfreada pela riqueza.
Tobei, após conseguir as primeiras moedas, abandona a esposa para ir correndo comprar armas e armadura. Num golpe de sorte consegue a cabeça de um grande samurai e, criando uma ilusão tão grande quanto a do cunhado, inventa sua própria realidade, na qual ele matou em um duelo aquele homem forte. Dessa maneira consegue vassalos, cavalos e prestígio, alcançando através de sua invenção sua grande ânsia.
Quando os dois finalmente escapam de suas ilusões, se esquecem que a vida real não para, não te espera para seguir seu rumo. Ambos esperam voltar para as esposas, deixá-las felizes com roupas, com o nível social que chegou e com sua volta em si. Mas suas esposas já não são as mesmas, a vida seguiu, e cada uma tentou acompanhá-la à sua maneira, sozinhas e, por isso, nos seus passos tortos, perdidos em suas desilusões com o mundo.
Vivendo ao meio de guerras, invasões e miséria, eles se sustentam com o pequeno comércio de objetos de porcelana que um dos casais produz junto com a esposa. Enquanto os homens (Genjuro e seu cunhado Tobei), insatisfeitos com essa vida, querem crescer socialmente (um sonha em se enriquecer aumentando e melhorando sua produção o outro sonha em ser samurai e ter alto prestígio social), as mulheres (Miyagi e Ohama) não se importam em continuar naquela vida, contanto que tenham o amor da família unida, que vive e trabalha junto de maneira bonita.
Logo no início do filme já nos é anunciado por um ancião da vila o que será daqueles homens, quando é dito que ‘a ganância gera ganância’, colocando como um processo de vício sem fim essa busca por prestígio e dinheiro.
Ao longo do filme os homens seguem cada vez mais cegos em busca de suas fantasias, sem perceber que estão perdendo toda a realidade que já têm, deixando as esposas, a casa e o filho para traz, num processo que encaro como uma decadência na busca da suposta ascendência.
Genjuro, após colocar em risco a vida de toda família para não perder seu produto durante uma invasão a vila, acaba vivendo na ilusão da companhia de uma moça de família, vivendo em uma mansão com ‘prazeres que nem sabia que existiam’. Nessa ilusão vive todo o luxo que queria, sua arte tem o reconhecimento que sonhara e sua vida não tem sofrimento. Mas em nada disso há realidade, se esquece do amor da esposa e do filho que te esperam em casa, pois fica cego com aquela fantasia, que não sabemos até que ponto é uma feita pela morta para atraí-lo para seu mundo e o que daquilo é a ilusão de sua própria cabeça, sua própria loucura da busca desenfreada pela riqueza.
Tobei, após conseguir as primeiras moedas, abandona a esposa para ir correndo comprar armas e armadura. Num golpe de sorte consegue a cabeça de um grande samurai e, criando uma ilusão tão grande quanto a do cunhado, inventa sua própria realidade, na qual ele matou em um duelo aquele homem forte. Dessa maneira consegue vassalos, cavalos e prestígio, alcançando através de sua invenção sua grande ânsia.
Quando os dois finalmente escapam de suas ilusões, se esquecem que a vida real não para, não te espera para seguir seu rumo. Ambos esperam voltar para as esposas, deixá-las felizes com roupas, com o nível social que chegou e com sua volta em si. Mas suas esposas já não são as mesmas, a vida seguiu, e cada uma tentou acompanhá-la à sua maneira, sozinhas e, por isso, nos seus passos tortos, perdidos em suas desilusões com o mundo.
A imprevisível previsão de Cléo
Ao iniciar o filme com um jogo de tarô Varda nos traz informações do passado da personagem Cléo, nos faz compreender seu momento presente e ainda revela como irá seguir seu futuro. Assim, nos primeiros minutos do filme, achamos que já sabemos quem é aquela personagem, e tudo o que irá acontecer com ela ao longo do dia deixando o roteiro muito fechado e, aparentemente, previsível.
O filme segue filmando as duas horas seguintes a essa previsão, enquanto a personagem espera o resultado de um exame, e, esperamos que nesse meio tempo ocorra todas as profecias da cartomante.
Porem, a diretora marca na maneira de se mostrar esse tempo que seguimos a personagem, explicitando seus conflitos e angústias. Muitas vezes temos auto-reflexões da personagem sobre o que ela é, suas atitudes e devaneios, mas não esquecendo de mostrar o corriqueiro da personagem, atos pequenos, sem significado, que humanizam ao extremo sua personalidade.
Dessa maneira, aquilo que antes era previsível ganha uma esfera muito maior. Surpreendendo-nos o tempo todo pela autocrítica da personagem, suas relações com a cidade e os habitantes. Vemos a cidade de Paris sobe seus olhos, algumas vezes parecendo um lugar sombrio e triste outras como um local alegre e espontâneo. Deixando a obra, que parecia muito simples, algo com uma dimensão enorme, que engloba toda a visão de mundo daquela mulher “sentenciada” a morte, a desilusões e ao amor.
O filme segue filmando as duas horas seguintes a essa previsão, enquanto a personagem espera o resultado de um exame, e, esperamos que nesse meio tempo ocorra todas as profecias da cartomante.
Porem, a diretora marca na maneira de se mostrar esse tempo que seguimos a personagem, explicitando seus conflitos e angústias. Muitas vezes temos auto-reflexões da personagem sobre o que ela é, suas atitudes e devaneios, mas não esquecendo de mostrar o corriqueiro da personagem, atos pequenos, sem significado, que humanizam ao extremo sua personalidade.
Dessa maneira, aquilo que antes era previsível ganha uma esfera muito maior. Surpreendendo-nos o tempo todo pela autocrítica da personagem, suas relações com a cidade e os habitantes. Vemos a cidade de Paris sobe seus olhos, algumas vezes parecendo um lugar sombrio e triste outras como um local alegre e espontâneo. Deixando a obra, que parecia muito simples, algo com uma dimensão enorme, que engloba toda a visão de mundo daquela mulher “sentenciada” a morte, a desilusões e ao amor.
terça-feira, 29 de março de 2011
A construção e desconstrução do homem e da cidade em Manhattam.
O filme começa com uma fotografia geral de Nova York, na região de Manhattam. Se seguem fotografias vindas em corte seco, deixando explícita a montagem, mostrando cada vez mais a fundo o bairro, as ruas, o cotidiano e, sobretudo, como a cidade está em ritmo de crescimento, prédios sendo construídos, a moda mudando, muitos carros nas ruas (aspectos constantemente presentes na fotografia do filme). Enquanto as imagens s seguem, ouvimos uma voz tentando iniciar o primeiro capítulo de seu romance, falando de um personagem apaixonado por aquela cidade mas que vê nela uma decadência dos velhos costumes devido ao progresso, aos remédios e drogas, a violência aumentado, dentre outros fatores típicos de uma cidade em crescimento acelerado.
As imagens vão mostrando a vida agitada, a multidão que habita a cidade, novas pessoas chegando num barco, cada vez mais habitantes nas ruas, a noite chega mas a vida não para, ainda há luzes acesas nas casas, o estádio de esportes lotado e fogos de artifício subindo aos céus.
De repente a câmera se centra numa pequena mesa num restaurante com dois casais sentados nela. E a partir daí acompanha a história desse pequeno grupo no meio da imensidão dessa cidade.
Nas externas e algumas internas os personagens enquadrados no canto da tela, reforçando ainda mais essa impressão de que são apenas poucas pessoas soltas na grandiosidade daquela cidade movimentada ou nas salas grandes de suas casas.
Enquanto as imagens toda hora nos remetem às mudanças que a cidade está sofrendo, os diálogos, decisões e situações pelas quais os personagens passam nos mostram como as pessoas também estão sempre em transição, com dúvidas o tempo todo, mudanças rápidas de decisões, sem conseguir se encontrar no meio disso tudo. Os amores, que antes pareciam tão certos, agora não conseguem durar mais que poucos meses, as pessoas não sabem do que gosta, não sabem o que seguir.
Uma tempestade de novidades conturba ainda mais a vida desses personagens: a arte moderna contestando a arte clássica, a razão em confronto com a emoção, os programas de TV, antes boas comedias, agora não passam de besteirol. E todas essas novidades se refletem em suas vidas pessoais, sobretudo no personagem principal, com sua ex assumindo um amor com outra mulher, seu filho fazendo aula de bale, as pessoas ao seu redor combatendo o stress com drogas, a arte virando um produto e seu amor sempre perdido, cego, sem saber para onde ir.
No início do filme está num caso serio com uma menina de 17 anos, romance estilo Lolita, só que nessa sociedade já não mais a menina vê isso como errado, ela ama de verdade o homem, que se contesta se aquilo está certo, se apaixona por outra e fica sempre instável. Na verdade, por ironia, a única personagem estável e decidida do filme é essa garota jovem, que o tempo todo tem os mesmo desejos e medos, não acompanhando (ou acompanhando no seu passo) o ritmo de constante mudança da cidade, comportamentos e cultura.
Ressalta-se também uma estratégia muito boa para dissolver no filme essa relação da cidade com a pessoa. Quando, em muitas cenas, a câmera está fixa e os personagens, andando, saem do enquadramento enquanto ela continua a filmar um pedaço da cidade. Temos a sensação de que aquela cidade continua seguindo, independente daqueles personagens, daquela história, mas a visão deles continua sempre para ela, eles querem acompanhá-la e por isso se perdem nesse processo.
Para fechar o filme com chave de ouro, a câmera volta para a imagem da cidade inteira, mostrando as chaminés expelindo fumaça, os carros trafegando, luzes acesas e que a cidade continua independente do que passou com aqueles personagens e com quaisquer um dos milhares de habitantes de Nova York.
Dessa maneira temos, nas entrelinhas de uma típica comédia de Allen, dentre várias outras grandes análises, o estudo de um tema que todos nos confrontamos o tempo todo: nosso descompasso com o acelerado ritmo de crescimento da cidade, pois esse não consegue respeitar a velocidade do crescimento interno de cada um, nos levando a uma perdição de quem somos quando não conseguimos nos mover a parte desse movimento.
As imagens vão mostrando a vida agitada, a multidão que habita a cidade, novas pessoas chegando num barco, cada vez mais habitantes nas ruas, a noite chega mas a vida não para, ainda há luzes acesas nas casas, o estádio de esportes lotado e fogos de artifício subindo aos céus.
De repente a câmera se centra numa pequena mesa num restaurante com dois casais sentados nela. E a partir daí acompanha a história desse pequeno grupo no meio da imensidão dessa cidade.
Nas externas e algumas internas os personagens enquadrados no canto da tela, reforçando ainda mais essa impressão de que são apenas poucas pessoas soltas na grandiosidade daquela cidade movimentada ou nas salas grandes de suas casas.
Enquanto as imagens toda hora nos remetem às mudanças que a cidade está sofrendo, os diálogos, decisões e situações pelas quais os personagens passam nos mostram como as pessoas também estão sempre em transição, com dúvidas o tempo todo, mudanças rápidas de decisões, sem conseguir se encontrar no meio disso tudo. Os amores, que antes pareciam tão certos, agora não conseguem durar mais que poucos meses, as pessoas não sabem do que gosta, não sabem o que seguir.
Uma tempestade de novidades conturba ainda mais a vida desses personagens: a arte moderna contestando a arte clássica, a razão em confronto com a emoção, os programas de TV, antes boas comedias, agora não passam de besteirol. E todas essas novidades se refletem em suas vidas pessoais, sobretudo no personagem principal, com sua ex assumindo um amor com outra mulher, seu filho fazendo aula de bale, as pessoas ao seu redor combatendo o stress com drogas, a arte virando um produto e seu amor sempre perdido, cego, sem saber para onde ir.
No início do filme está num caso serio com uma menina de 17 anos, romance estilo Lolita, só que nessa sociedade já não mais a menina vê isso como errado, ela ama de verdade o homem, que se contesta se aquilo está certo, se apaixona por outra e fica sempre instável. Na verdade, por ironia, a única personagem estável e decidida do filme é essa garota jovem, que o tempo todo tem os mesmo desejos e medos, não acompanhando (ou acompanhando no seu passo) o ritmo de constante mudança da cidade, comportamentos e cultura.
Ressalta-se também uma estratégia muito boa para dissolver no filme essa relação da cidade com a pessoa. Quando, em muitas cenas, a câmera está fixa e os personagens, andando, saem do enquadramento enquanto ela continua a filmar um pedaço da cidade. Temos a sensação de que aquela cidade continua seguindo, independente daqueles personagens, daquela história, mas a visão deles continua sempre para ela, eles querem acompanhá-la e por isso se perdem nesse processo.
Para fechar o filme com chave de ouro, a câmera volta para a imagem da cidade inteira, mostrando as chaminés expelindo fumaça, os carros trafegando, luzes acesas e que a cidade continua independente do que passou com aqueles personagens e com quaisquer um dos milhares de habitantes de Nova York.
Dessa maneira temos, nas entrelinhas de uma típica comédia de Allen, dentre várias outras grandes análises, o estudo de um tema que todos nos confrontamos o tempo todo: nosso descompasso com o acelerado ritmo de crescimento da cidade, pois esse não consegue respeitar a velocidade do crescimento interno de cada um, nos levando a uma perdição de quem somos quando não conseguimos nos mover a parte desse movimento.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Da utilidade do blog.
Esse blog foi criado para discutir cinema.
Seja para analizar filmes. Dissecá-los, da primeira linha até a última cena (claro que avisando quando houver qualquer elemento que possa estragar a experiência de quem nunca assistiu). Ou levantar questões pontuais, menores, que me marcaram no filme, e compartilhá-las. Discutir a carreira de grandes diretores, suas escolhas cinematográficas e de vida, e como isso afetou suas obras. Explorar gostos e ideiais cinéfilos, pseudo-cinéfilos e pops. Analizar os rumos que essa arte já tomou e o percurso que está a seguir.
E tudo isso, do incrível ponto de vista, de um aspirante a cineastra. Um amador da arte cinematográfica. haha
Seja para analizar filmes. Dissecá-los, da primeira linha até a última cena (claro que avisando quando houver qualquer elemento que possa estragar a experiência de quem nunca assistiu). Ou levantar questões pontuais, menores, que me marcaram no filme, e compartilhá-las. Discutir a carreira de grandes diretores, suas escolhas cinematográficas e de vida, e como isso afetou suas obras. Explorar gostos e ideiais cinéfilos, pseudo-cinéfilos e pops. Analizar os rumos que essa arte já tomou e o percurso que está a seguir.
E tudo isso, do incrível ponto de vista, de um aspirante a cineastra. Um amador da arte cinematográfica. haha
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