sexta-feira, 3 de junho de 2011

Os olhos do espectador em Gosto de Cereja.

O filme começa. Esperamos ver seu nome escrito em uma tela preta com uma fonte bonita junto aos créditos iniciais da obra.
Ao invés disso, vemos um homem solitário em seu carro, passando devagar pelas ruas da cidade XXXXX. Vemos, pelo lado de dentro do carro, várias pessoas desesperadas para que aquele homem queira contratá-las, mas ele não pede a nenhuma delas, não sabemos o que ele deseja, por que observa tão lentamente aqueles homens. Vemos um fragmento de realidade forte e bem construído, ao invés de sermos puxados para o filme de forma brusca. O homem aos poucos se afasta daquele problema que nos cerca em toda cidade grande e algumas vezes ateh o vivemos. De repente, aparece o título e os créditos, deslocados para dez minutos depois do que o de costume, quebrando, de forma proposital, a diegese que estava sendo criada. Nos fazendo refletir de forma crítica sobre o fragmento de realidade nos passado.

Ao longo do filme o personagem segue com seu carro cada vez mais para uma ‘periferia’ da cidade, aonde aos poucos estão surgindo obras e se perdendo a natureza. Ele procura alguém capaz de realizar um serviço para ele, a forma estranha como ele faz o pedido faz muitas pessoas já colocarem o peh atrás, achando que é alguma safadeza, o que passa ao espectador esse sentimento de que o homem se tornou uma criatura hostil, desconfiada. Quando finalmente sabemos qual o serviço que ele precisa, descobrimos que ele quer se matar, e as pessoas continuam negando o serviço, se assustando, algumas pessoas talvez mais mortas interiormente do que ele não querem o ver acabar com sua vida.

Toda essa carga dessas palavras, do homem que diz, sem explicações que quer acabar com sua vida, dos outros que agem sempre com um peh atrás ou achando que teem a solução para a vida dele, acabam se juntando as imagens do filme, proporcionando uma experiência única ao espectador. Tudo o que vemos é ou o homem de dentro do seu carro passando rapidamente por coisas belas e feias, ou paisagens lindas cortadas por estradas, árvores sumindo, cores secas, tratores decepando a terra.

De repente aparece um homem que diz aceitar o serviço. Não vemos seu rosto, isso não importa, o que importa é seu discurso. Ele diz sobre olhar as coisas belas, olhar o mundo sob outra perspectiva. Diz quanto é bom apreciar a natureza e os prazeres simples dela que nos rodeia. Ao mesmo tempo que ele diz isso, a câmera sai do carro, e nos mostra a mesma paisagem de antes, mas, pelo discurso animador de agora, olhamos para tudo com um olhar de esperança, de que aquelas árvores e arbustos isolados teem vida, e vida de sobra, e o quanto isso é sagrado. A terra árida, já não é tão árida, é quente, é vida.

O protagonista também é abalado por essa fala, muda sua perspectiva. Já não tem mais tanta certeza se quer realmente desistir da vida. Por um impulso estranho de conversar mais uma vez com o sujeito que aceitou o trabalho sai do carro e vive relações, vê crianças, vê vida, e isso o afeta e nos afeta.

De noite, vemos por fora da sua casa (como se realmente fôssemos flaneurs ou porque o interior dessa não importa em nada) ele se arrumando e saindo para cumprir sua palavra.
Mas ele não vai de carro como havia falado, vai te taxi, e deita mas não o vemos beber o remédio. Agora a paisagem da estrada está linda, está escuro, a estrada se confunde com um rio cortando a vegetação e as luzes da cidade de longe, aquelas luzes paradas e eternas, nos remetem as estrelas que faltam no céu. Começa a chover, o relâmpago ilumina o rosto do personagem, tudo fica escuro, não se sabe se ele verá o sol nascer. Mas sabemos que agora nós temos um motivo de vida a mais e por isso acreditamos que ele também tenha.

De repente a diegese do filme é quebrada mais uma vez e temos uma filmagem de forma quase documental de Abbas dirigindo uma cena com vários soldados perto das árvores, o ator principal fumando um cigarro e a equipe toda lá. Talvez seja uma cena apenas final, apenas de quebra para abrir para uma reflexão para nossa vida, para o filme vazar para o espectador. Mas acredito em mais, pois nessa gravação vemos mais árvores, mais cores, mais pessoas unidas e vida. Nos faz mudar radicalmente nossa visão sob aquele espaço e nos faz acreditar que o personagem (vivo ou não) passou a ver tudo também daquela maneira apaixonante.

A pouco tempo ouvi certo discurso de que o cinema não tem mais o poder de modificar a pessoa. Discordo disso. e o filme de Kiarostami eh uma prova de que o cinema ainda tem essa força. Nos modifica durante o filme, e traz essas novas concepções para nosso dia-a-dia e nossos discursos, mesmo que de forma inconsciente.