terça-feira, 5 de abril de 2011

O "ser artista" em A Hora do Lobo

O dom artístico, no senso comum, eh tratado sob dois pontos de vista: uma dádiva divina, um dom, que você ganha ao nascer, irá iluminá-lo ao resto de sua vida ou, combatendo essa explicação mágica para a arte, como o resultado de muito estudo e esforço, que eleva o indivíduo a um nível muito maior que do homem comúm.

No filme Hora do Lobo, Bergman não quer discutir de onde vem o dom, mas reflete sim ateh que ponto isso eh uma benção, uma realização, e se não pode ser um castigo ou uma degradação humana.

O personagem principal vive isolado e uma ilha com sua menina. Já no início vemos que ele tem uma compreensão muito profunda da realidade palpável, encara o tempo e espaço de sua maneira única, ao mesmo tempo em que tem um medo muito real de figuras que assombram seus pesadelos.

Ao longo do filme vivemos transitando entre o mundo palpável e o onírico (onde está o
reflexo da realidade aos olhos do artista), sem perceber que estamos toda hora ultrapassando a película que divide essas duas realidades. Temos então a sensação que o artista eh essa pessoa que conseguiu extinguir essa divisão de mundos, e considerá-los igualmente reais.

Porem, ao longo do tempo percebemos que ele não tem controle sobre essa sua transcendência. Tendo muitas vezes medo de alcançá-la, de ficar perdido naquele mundo onde se encontra suas inspirações e pensamentos no estado mais profundo. Sua mulher tem uma ligação tão forte com o marido que também vê e faz parte desse mundo, mas ela tem uma maior noção de que aquilo eh outro mundo, e tenta impedir o marido de se perder nele e esquecer a realidade.

O artista acaba entrando em uma crise, não sabe mais quem eh sua musa inspiradora, não sabe em que mundo está, se aquelas criaturas querem seu bem ou o seu mal, e, nessa loucura acaba se afundando num êxtase supremo no qual desaparece da realidade, para seu bem ou seu mal.

A ilusão da ganância em Contos da Lua Vaga

Na obra-prima do diretor japonês Kenji Mizoguchi, acompanhamos a vida de dois casais pobres, habitantes de uma pequena vila, no Japão feudal.

Vivendo ao meio de guerras, invasões e miséria, eles se sustentam com o pequeno comércio de objetos de porcelana que um dos casais produz junto com a esposa. Enquanto os homens (Genjuro e seu cunhado Tobei), insatisfeitos com essa vida, querem crescer socialmente (um sonha em se enriquecer aumentando e melhorando sua produção o outro sonha em ser samurai e ter alto prestígio social), as mulheres (Miyagi e Ohama) não se importam em continuar naquela vida, contanto que tenham o amor da família unida, que vive e trabalha junto de maneira bonita.

Logo no início do filme já nos é anunciado por um ancião da vila o que será daqueles homens, quando é dito que ‘a ganância gera ganância’, colocando como um processo de vício sem fim essa busca por prestígio e dinheiro.

Ao longo do filme os homens seguem cada vez mais cegos em busca de suas fantasias, sem perceber que estão perdendo toda a realidade que já têm, deixando as esposas, a casa e o filho para traz, num processo que encaro como uma decadência na busca da suposta ascendência.

Genjuro, após colocar em risco a vida de toda família para não perder seu produto durante uma invasão a vila, acaba vivendo na ilusão da companhia de uma moça de família, vivendo em uma mansão com ‘prazeres que nem sabia que existiam’. Nessa ilusão vive todo o luxo que queria, sua arte tem o reconhecimento que sonhara e sua vida não tem sofrimento. Mas em nada disso há realidade, se esquece do amor da esposa e do filho que te esperam em casa, pois fica cego com aquela fantasia, que não sabemos até que ponto é uma feita pela morta para atraí-lo para seu mundo e o que daquilo é a ilusão de sua própria cabeça, sua própria loucura da busca desenfreada pela riqueza.

Tobei, após conseguir as primeiras moedas, abandona a esposa para ir correndo comprar armas e armadura. Num golpe de sorte consegue a cabeça de um grande samurai e, criando uma ilusão tão grande quanto a do cunhado, inventa sua própria realidade, na qual ele matou em um duelo aquele homem forte. Dessa maneira consegue vassalos, cavalos e prestígio, alcançando através de sua invenção sua grande ânsia.

Quando os dois finalmente escapam de suas ilusões, se esquecem que a vida real não para, não te espera para seguir seu rumo. Ambos esperam voltar para as esposas, deixá-las felizes com roupas, com o nível social que chegou e com sua volta em si. Mas suas esposas já não são as mesmas, a vida seguiu, e cada uma tentou acompanhá-la à sua maneira, sozinhas e, por isso, nos seus passos tortos, perdidos em suas desilusões com o mundo.

A imprevisível previsão de Cléo

Ao iniciar o filme com um jogo de tarô Varda nos traz informações do passado da personagem Cléo, nos faz compreender seu momento presente e ainda revela como irá seguir seu futuro. Assim, nos primeiros minutos do filme, achamos que já sabemos quem é aquela personagem, e tudo o que irá acontecer com ela ao longo do dia deixando o roteiro muito fechado e, aparentemente, previsível.

O filme segue filmando as duas horas seguintes a essa previsão, enquanto a personagem espera o resultado de um exame, e, esperamos que nesse meio tempo ocorra todas as profecias da cartomante.

Porem, a diretora marca na maneira de se mostrar esse tempo que seguimos a personagem, explicitando seus conflitos e angústias. Muitas vezes temos auto-reflexões da personagem sobre o que ela é, suas atitudes e devaneios, mas não esquecendo de mostrar o corriqueiro da personagem, atos pequenos, sem significado, que humanizam ao extremo sua personalidade.

Dessa maneira, aquilo que antes era previsível ganha uma esfera muito maior. Surpreendendo-nos o tempo todo pela autocrítica da personagem, suas relações com a cidade e os habitantes. Vemos a cidade de Paris sobe seus olhos, algumas vezes parecendo um lugar sombrio e triste outras como um local alegre e espontâneo. Deixando a obra, que parecia muito simples, algo com uma dimensão enorme, que engloba toda a visão de mundo daquela mulher “sentenciada” a morte, a desilusões e ao amor.