O dom artístico, no senso comum, eh tratado sob dois pontos de vista: uma dádiva divina, um dom, que você ganha ao nascer, irá iluminá-lo ao resto de sua vida ou, combatendo essa explicação mágica para a arte, como o resultado de muito estudo e esforço, que eleva o indivíduo a um nível muito maior que do homem comúm.
No filme Hora do Lobo, Bergman não quer discutir de onde vem o dom, mas reflete sim ateh que ponto isso eh uma benção, uma realização, e se não pode ser um castigo ou uma degradação humana.
O personagem principal vive isolado e uma ilha com sua menina. Já no início vemos que ele tem uma compreensão muito profunda da realidade palpável, encara o tempo e espaço de sua maneira única, ao mesmo tempo em que tem um medo muito real de figuras que assombram seus pesadelos.
Ao longo do filme vivemos transitando entre o mundo palpável e o onírico (onde está o
reflexo da realidade aos olhos do artista), sem perceber que estamos toda hora ultrapassando a película que divide essas duas realidades. Temos então a sensação que o artista eh essa pessoa que conseguiu extinguir essa divisão de mundos, e considerá-los igualmente reais.
Porem, ao longo do tempo percebemos que ele não tem controle sobre essa sua transcendência. Tendo muitas vezes medo de alcançá-la, de ficar perdido naquele mundo onde se encontra suas inspirações e pensamentos no estado mais profundo. Sua mulher tem uma ligação tão forte com o marido que também vê e faz parte desse mundo, mas ela tem uma maior noção de que aquilo eh outro mundo, e tenta impedir o marido de se perder nele e esquecer a realidade.
O artista acaba entrando em uma crise, não sabe mais quem eh sua musa inspiradora, não sabe em que mundo está, se aquelas criaturas querem seu bem ou o seu mal, e, nessa loucura acaba se afundando num êxtase supremo no qual desaparece da realidade, para seu bem ou seu mal.
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